quinta-feira, setembro 29, 2011
PASSAGEM DOS SONHOS
Inclinada ou deitada sobre o braço esquerdo
é uma mulher-montanha ou uma montanha-mulher
da cintura para cima vê-se o corpo nu
no seio do lado direito há uma ferida-cratera violácea
ela diz: aqui é luz
depois movendo a mão direita
assinala outro sítio que não é bem o seio esquerdo
julgo que ainda é o seio direito
e diz: aqui é sombra
(não é bem sombra o que ela diz
seria antes o lugar de uma cor
que não sei porquê se opõe à luz)
depois desce lentamente com um dedo espalmado
na direcção do sexo
a unha ao deslizar abre um sulco-ranhura
semelhante a uma fenda aberta na terra
já não se vê carne mas uma planície
com no meio a fenda separadora
descendo mais a mão desaparece entre sedas
que revelam-ocultam outro corpo montanha
Mário Cesariny, in "19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão Seguidos de Poemas de Londres" quadrante, 1971
* Descaradamente copiado do Blog O café dos loucos
http://ocafedosloucos.blogspot.com/
quarta-feira, setembro 21, 2011
Heim . V

O corpo já não pede, o corpo já nã fala. Vai ficando assim, como que desfalecido em posição de vida para que ninguém se dê conta. Para que ninguém se dê conta de uma inércia contagiosa que vai contaminando aos poucos cada célula orgânica e quiçá também inorgânica. É teimoso esse corpo estranho... vai ignorando, relativizando os sintomas e os sinais. O corpo vai-se agarrando, por força de uma circunstância desconhecida mas por certo existente, às coisas e aos lugares, aos compromissos e ás pessoas... inventa o amor, a amizade, semeia responsabilidades e contratos se não físicos pelo menos então mentais. Tudo para ficar na posição correcta das coordenadas da vida que foi assumindo como sua.
O corpo já não deseja. O corpo espera. Vai esperando assim.
quarta-feira, julho 06, 2011
Geduld V
terça-feira, junho 07, 2011
my own private fukushima...
sexta-feira, maio 27, 2011
N.N.
segunda-feira, abril 11, 2011
1 . beatriz .
new york.
Originally uploaded by Sandra Beijer
agarra-me a mão no escuro.
lado a lado. olhamos o palco. agora de frente. aquele palco foi nosso um dia e as recordações teimam em fazer-me querer lá voltar...
para onde foram as metáforas? e os eufemismos? onde se escondeu a ficção?
agarra-me a mão no escuro. agora quando a cortina se fecha... tu e eu, ficamos do lado de fora.
quinta-feira, abril 07, 2011
sexta-feira, abril 01, 2011
Pálida. Hirta. Nua. Indecisa.
Untitled
Originally uploaded by stefanyalves
"Em quarto estranho me encontro a reparar nos espelhos e eu neles, pálida, impassível, na imagem que com ela compartilho desconhecendo-a até áquele momento. Hirta, dividida entre o prazer sentido, a ira, o pânico, o recomeço. Quem sabe se o recomeço e assim me olha. - Porém estou aqui somente a fim de a tirar de casa para a o convento. Estranho exercício lhe quero dar à paixão, exercício do corpo.; paixão extinta, talvez a reacendar-se com a minha presença."
Uma esperanca de vício. Um engano de novo. Um novo aturdimento.
NCP
domingo, fevereiro 27, 2011
sábado, fevereiro 26, 2011
telepatia dos sentimentos
Originally uploaded by Sabino .
não. não funciona saber sem sentir.
as palavras que usas não são tuas... já as usou um qualquer poeta de rua, um escritor famoso nessa ou noutras combinações, mais ou menos famosas. vais construindo castelos verbais que tanto ganham na forma como na insignificância...
sei aquilo que ouço e reconheço as palavras que leio. não são tuas... e falta-me o toque final que lhes oferece o significado.
não. não o toque da entoação, mas aquele da tua mão.
segunda-feira, fevereiro 21, 2011
O cheiro....
Remember 20 years ago?
Originally uploaded by Federico Erra
"Se eu te amasse a horas certas,
abririas as pernas com menos cuidado?
Se eu começasse sempre pela língua,
julgar-me-ias menos bruto?
E se eu não te mordesse o pescoço,
acaso continuarias a cravar-me as unhas nas costas?
Se eu não apagasse a televisão. adormecerias aconchegada à minha cintura?
Se eu tomasse banho depois de fornicarmos,
julgarias o acto mais higiénico?
Se em vez do silêncio depois do orgasmo
passássemos a ter uma confissão no olhar,
perdoar-nos-ia deus o desperdício?
Já agora diz-me: se não dependêssemos
um do outro, como é que explicarias
o teu cheiro nas minhas palavras?"
-"A Dança das Feridas" - Henrique Manuel Bento Fialho
sábado, fevereiro 19, 2011
positionsmäßig...
pressa....
Originally uploaded by stefanyalves
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.
Alexandre O'Neill
domingo, fevereiro 06, 2011
a vida é uma coisa, o amor é outra.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Miguel Esteves Cardoso
quarta-feira, fevereiro 02, 2011
terça-feira, fevereiro 01, 2011
fala-barato
Originally uploaded by Sabino .
Como se se tratasse de uma venda em géneros... vamos trocando palavras por sorrisos mais ou menos verdadeiros, nem sempre totalmente relevantes. As palavras perdem o valor quando atravessam a fronteira dos lábios...
já não são minhas. as palavras. são de quem as ouviu. de quem as guardou.
se amanhã me perguntarem o que te vendi... não vou saber responder. No mercado da comunicação aleatória não há tempo para armazenamentos.
Não há tempo... nem vontade.
domingo, janeiro 23, 2011
A Poeta

"Minha querida filha, minha rica, chegaram aqui os seus versos, guardei um livro para mim que li e reli. Acho tudo tão lindo, dormi com o livrinho debaixo do meu travesseiro. Fiquei tão emocionada! (...) Não sei que mais hei-de dizer. Custou-me tanto a habituar-me à ideia de ter uma filha Poeta, não esperava nada que isso me acontecesse mas agora já sei como é, já compreendo tudo. (...)"
excerto retirado da edição online do Ipsilon.
sexta-feira, janeiro 21, 2011

"Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar"
Maria Teresa Horta
foto e poema retirados do Blog da Livraria Trama
Prinz *
sábado, janeiro 15, 2011
# Raum
#
Originally uploaded by Berta Pfirsich
Perdi a conta das portas que abri e janelas que fechei. voltei a fechar para depois abrir numa sequência mecânica interminável. infundada. torno os espaços maiores ou mais pequenos, largos ou estreitos nesta brincadeira de esperas e desencontros...
parece que tenho... quase todo o espaço do mundo sem ninguém para o decorar.






