Le moulin
Originally uploaded by IrenaS
Cortaram os trigos. Agora
a minha solidão
vê-se melhor.
Sophia de Mello Breyner
Em qualquer aventura o importante é partir e nao chegar...
Mandei um postal para o fundo das minhas memórias. Pedi-lhes com jeitinho para que me mandassem uma imagem tua. Uma imagem com data de expiração, a terminar ainda hoje. Não. Não lhes pedi uma fotografia recente. Não. Pedi-lhes um detalhe, um pormenor daquela cumplicidade de outrora que já tinhamos esquecido mesmo quando ainda partilhavamos esporadicamente a mesma cama.
Isso.
Queria que me tivessem enviado uma imagem desse nosso esporádico que sabia a morangos frescos numa noite fria de inverno.
Esperei dias. Esperei noite. Umas vezes com mais ansiedade que outras. Abri religiosamente todos os dias a caixa do correio para ver se te encontrava... nesse espaço da minha ilusão com uma cesta de morangos. Mas encontrei sempre aquele quadrado vazio que aos poucos foi ganhando o meu carinho.
Hoje aventurei-me. Neste meu labirinto de recordações, caras feias e gestos bonitos. Procurei-te em cada cantinho de mim só para te ver mais uma última vez, na esperança absurda de poder dar-te aquele beijo de despedida que congelei no canto da boca para quando te voltasse a encontrar.
Agora já nem sei para onde ele foi. Ainda bem que não te encontrei... não tinha palavras para te dar, só esse beijo perdido com sabor aos nossos morangos de inverno.
Perdi-o.
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Acredito agora em quem sempre me disse que os morangos só se comem no verão.
Sure i had a plan.
Pack.
Clean.
Leave.
Missed the train.
Called.
No one there.
Ela nunca conseguiu tirar os olhos daquela mulher, a que a olhava fixamente do lado real do espelho. Esqueceu-se de responder à voz que a chamou de longe naquele mundo secundário do outro lado do espelho. Talvez tenha sido por orgulho. Talvez tenha por ideologia.
Quando ela - a que vivia do lado real do espelho - partiu o espelho, ela estava ali para o sentir: como quem vê um terramoto na televisão sem puder fazer nada para o impedir.
Finalmente virou-se e resolveu escutar a dita voz que gritava já quase sem força o seu nome. Seguiu-a... num passo cansado e inseguro. O caminho era escuro e era a luz do mundo real que agora se deixava inadvertidamente reflectir no seu olhar.
Nunca chegou a conhecer a mulher que vivia do lado real do espelho nem sequer o homem que um dia o segurou. Mas deu o nome de carinho ao sentimento que deixou no instante em que o espelho rachou. Reconheceu a insignificância da sua presença nesse mundo surreal e apreciou o valor do caminho escuro que tinha pela frente. Escuro com leves traços de luz guardados do mundo real.

grab a pencil and a piece of paper. Try to draw the line from here to there. Make it sunny. Sometimes rainy. Don't decide yet the places you will go, nor the people you will me. You'll inevitably find out later.
Pack your bag: the favourite song, the best moments and the most painful ones. Put in there everything you learned and all the things you gave.
Close the door and make sure you forgot the piece of paper you draw inside. I guess you won't need it when once you left.
Foi através do espelho que ela a viu pela primeira vez.
A verdade é que ela nunca chegou a vê-la de facto.
Conhece apenas o seu reflexo: a forma como se mexe com uma certa indiferença pelo meio da multidão e a atenção que desperta naqueles por quem passa. Aprendeu os truques do seu jeito de falar, o tom baixo e a perspicácia na escolha das palavras. Familiarizou-se com as suas variações de humor e compactuou com elas. Absorveu a sua imagem na esperança de não ter de a ver novamente no começo de um novo dia.
Para ela - aquela que deixa a sua imagem reflectir repetidamente no espelho - resta apenas a esperança de um dia a ver desviar o olhar do espelho por um segundo para conhecer aquele que sempre o segurou.
Não te preocupes comigo se não me vires ao fim do dia a descer os trilhos até ti. E se não te ligo durante o dia não quero que penses que é por desprezo... estou a coleccionar palavras que mais tarde te quero oferecer.
Não me procures agora.
Gostava de ficar aqui por mais uns segundos: sentada no meio dos trilhos que construímos neste bosque que tem o nosso nome (pelo menos para nós).
Um dia vou acabar o esboço do trilho que pretendo abrir entre aquilo que é teu e tudo o que um dia foi nosso.
Não te preocupes em esperar por mim...



É tão bom entrar aqui.
Daqui de onde nunca se sai.
E ficar.
Miguel Esteves Cardoso






O meu amor tem lábios de silêncio
E mãos de bailarina
E voa como o vento
E abraça-me onde a solidão termina
O meu amor tem trinta mil cavalos
A galopar no peito
E um sorriso só dela
Que nasce quando a seu lado eu me deito
O meu amor ensinou-me a chegar
Sedento de ternura
Sarou as minhas feridas
E pôs-me a salvo para além da loucura.
O meu amor ensinou-me a partir
Nalguma noite triste
Mas antes, ensinou-me
A não esquecer que o meu amor existe.


Fico cá fora à espera que adormeças. Não quero que amanhã te lembres que violei o teu sono pelo prazer da palma da tua mão.
É tão diferente este lugar agora
É tão diferente este lugar assim
Esquecido no silêncio da nossa ausência
Já não
É tão diferente este lugar agora
Distante no tempo em que o descobri
E hoje aqui agora chego e não vejo o que vi
Parece até que a memória faz pouco de mim
E nunca vai mudar
Dizias tu
Nem o tempo há-de apagar este momento em mim
Enchias os meus olhos de luz
Dizias tu
Quantas vezes voltei para te procurar?
Já nem
Sei bem
Ao certo
Nunca vai mudar
Dizias tu
Nem o tempo há-de apagar este momento em mim
Enchias os meus olhos de luz
Dizias tu
foto extraída de: http://olhares.aeiou.pt/espero_por_ti___cristina_nava_foto1842225.html
