
As caixinhas da minha alma não têm fechadura.
Em qualquer aventura o importante é partir e nao chegar...

São pessoas normais como nós e toda a gente que caminham as mesmas ruas, frequenta os mesmos espaços. Aparentemente. Mas só aparentemente. Os criadores de monstros têm um trabalho vitalício que os ocupa 24 horas por dia e sete dias por semana lá na oficina do pensamento. Peça por peça, vão criando, magicando um pequeno monstrinho. Sozinho. O criador de monstros é um ser solitário. E é ela – a solidão – que alimenta o monstro que ele cria, que lhe dá força, carisma e independência. Egocêntrico. O criador de monstros gosta de si e reconhece (ou será todo esse reconhecimento mera fantasia sua?) que o mundo, as pessoas que o rodeiam não são, não dão, não fazem o suficiente. Nunca é suficiente. O descontentamento é a matéria-prima do nosso criador de monstros. Mas…
No final, o monstro já criado – feio, pavoroso, diabólico – é chegada a conclusão: não existe espaço no mundo para ele. O criador de monstros esconde-o debaixo da sua cama. Por vergonha? Por gozo? O criador de monstros não cria monstros para os outros. Não, ele não quer mal a ninguém… senão a ele próprio. Ele cria os monstros para si, para sua própria companhia. Porque ás vezes é melhor sentir tristeza, dor, indiferença do que não sentir nada de nada.









Em alemao "spüren" significa sentir. Mas nao se trata de um sentir qualquer. A língua portuguesa tem uma certa ambiguidade, por vezes bastante, vulnerável. Em português tudo se sente. Sente-se o cheiro. Sente-se o sabor. Sente-se a música. Sente-se o vento. Sente-se o metal frio das chaves que abrem a porta de casa.
Voltemos ao "spüren". Sim, "spüren" significar sentir. Mas nao se trata de um sentir ambíguo(como o nosso!), "spüren" significa sentir algo com as maos, com o corpo. "Spüren" é o sentimento que fica depois do toque, seja ele leve ou intenso, frio ou quente, carinhoso ou agressivo. E agora a pergunta do meu título é: Consegues "sentir" a música?
Deita-te no chao de barriga para baixo. Fecha os olhos. Deixa a música tocar bem alto.
Spürst du das?
inspirado no filme de Carline Link, Jenseits der Stille, no qual a música tem de entrar no coracao sem utilizar os ouvidos.

Every feeling has its expiration date.
The game's over, the lights go out. And you wait... you wait... you can't be tired of waiting if you love. It is in your deepest nature to wait. Wait until the day you realise you are not waiting anymore....
And the only remaining question is: Is a feeling still alive once it expirates?
I think so...

Era uma vez a Loucura. Um dia ela decidiu dar uma festa e convidar todos os seus amigos. Durante a festa a Vontade sugeriu jogar às escondidas. „Jogar às escondidas? Que jogo é esse?“ perguntou a Ignorância. „As escondidas é um jogo: um de nós conta até 100 e os outros têm de se esconder. O último a ser encontrado ganha.“ Respondeu prontamente a Inteligência. Todos quiseram jogar menos o Medo e a Preguiça. A Loucura está tão entusiasmada que se ofereceu para ser ela a contar. A confusão começou, todos se queriam esconder o mais rápido possível. A Segurança foi esconder-se no sótão da casa do vizinho. De certeza que aqui ninguém a encontra! O descuido escondeu-se atrás de uma plantinha. A Tristeza só chorava, sem conseguir sair do sítio. A Insegurança chorava junto como ela, porque não sabia se era melhor esconder-se à frente ou atrás do muro. “…98,99,100!“ gritou a Loucura. „Eu vou vos encontrar!“ A primeira a ser encontrada foi a Curiosidade, porque estava tão curiosa de saber quem seria o primeiro a ser encontrado, que foi descoberta ao espreitar do seu esconderijo. A Felicidade também foi rapidamente descoberta. Era impossível não ouvir as risadinhas dela. Em pouco tempo a Loucura já tinha encontrado quase todos os seus amigos. Até mesmo a Segurança. Foi então que o Cepticismo se lembrou: „E onde é que está o Amor?“ Todos encolheram os ombros. Na verdade, ninguém reparou onde é que ele se escondeu. Começaram a procurar: debaixo de pedras, para lá do Arco-Íris, sobre as árvores… A Loucura procurava no meio dos arbustos com um pequeno pauzinho. De repente ouviu-se um grito! Era o Amor. A Loucura arrancou-lhe um olho sem querer. Ela pediu imensas desculpas, e como prova do seu arrependimento, ela prometeu ao Amor que iria ser os seus olhos, para sempre. O Amor aceitou. E foi a partir deste momento que se começou a dizer que o Amor é cego e guiado por uma certa Loucura.
traducao de um texto publicado ontem no blog da Alexandra

Inspira,
Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura
Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis
Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor
José Tolentino Mendonca


